**Um filme com actores decentes e uma protagonista simpática, estragado por argumentistas muito incompetentes.**
Este é um daqueles filmes que decido ver sabendo que não posso esperar muita coisa dele. Os produtores e o estúdio sabiam que tinham um problema sério quando perceberam que Eddie Murphy, a estrela que alavancou os dois filmes anteriores, não estava disponível a voltar a encarnar o icónico veterinário que fala com os animais. Teriam, pois, de fazer um filme “Dr. Dolittle” sem a personagem-título, e resolveram esse problema por via da sua filha, Maya Dolittle, que passou para a ribalta substituindo o pai, como uma adolescente atrapalhada que vive em conflito com o seu indesejado dom herdado pelo sangue.
A premissa do argumento é um gigantesco cliché das comédias adolescentes: a jovem que tenta enquadrar-se no rebanho amorfo da juventude e fazer parte dessa manada irracional movida a hormonas, inveja e vaidade, mas que tem uma habilidade que não lhe permite passar despercebida e que acaba por usar para algo bom e nobre. O problema não é o facto de ser cliché, é o facto de, ainda assim, os responsáveis pela escrita, Nina Colman e Hugh Lofting, terem sido incapazes de fazer melhor que uma insípida história de telefilme de sábado à tarde com personagens de papelão, diálogos merecedores de desprezo e piadas recauchutadas dos dois filmes anteriores! A previsibilidade é total: eu adivinhei o filme todo nos primeiros trinta minutos e, com isso, perdi muito do meu interesse.
A única coisa que me impediu de parar de ver o filme a meio foi a interpretação notável de Kyla Pratt, uma actriz pela qual eu não estava disposto a arriscar e que me surpreendeu positivamente, com uma actuação empenhada, uma dose agradável de carisma e simpatia e uma excelente habilidade para cantar e para a expressão corporal. Não acredito que se venha a destacar como actriz, mas não é desprovida de talento. O restante elenco também é bastante decente e faz o que precisa de ser feito para lhe dar o apoio necessário. Murphy é um grande actor, mas a verdade é que não senti falta dele aqui e não foi a sua ausência que estragou o filme aos meus olhos.