**Um filme pesado, sombrio e difícil de ver sobre temas complexos e indigestos.**
Os finais dos anos 60 e inícios dos anos 70 assistiram ao lançamento de uma colecção de filmes bastante incomum, mas que abriu caminhos e derrubou barreiras mentais para toda a sétima arte. A Revolução Sexual trouxe a nudez para o cinema como nunca antes tinha sido possível, e permitiu a abordagem de temas que dantes só podiam ser mencionados a medo, como a prostituição e a homossexualidade, dois temas que estão bem presentes na trama deste mesmo filme, onde um ingénuo jovem do Texas que se veste de cowboy vai para Nova Iorque decidido a fazer fortuna como prostituto.
Dirigido por John Schlesinger e escrito por Waldo Salt e James L. Herlihy, o filme é uma viagem sombria e desmoralizante à cloaca da “Grande Maçã”: os ambientes sombrios das ruas e becos nova-iorquinos, onde nem durante o dia há luz solar, combinam com a noite, iluminada por néon e por um trânsito que nunca pára de fluir. Pessoas de todos os tipos se cruzam nas ruas, mas muitas delas são notoriamente bizarras e assustadoras: traficantes e chulos, prostitutas e toda aquela gente que se alimenta das migalhas da sociedade e vive oculta nas sombras. Joe Buck, a personagem principal, parece um santo em meio a todos na medida em que está, nitidamente, fora do seu ambiente. Só ele é que não compreende isso. É enganado incontáveis vezes, ludibriado e usado, e acaba por travar amizade com Rizzo, um italiano com ares de mafioso que vive num prédio prestes a ser demolido e vai fazendo pequenos roubos e artimanhas.
O filme é bom, principalmente se considerarmos os valores de produção e o esforço dos envolvidos. A cinematografia é excelente e aproveita muito bem o “colorido” da noite de Nova Iorque, em particular os faróis dos automóveis e o néon. A decoração de alguns dos cenários é impressionantemente “kitsch”, mas isso é intencional e mostra-nos o vazio e a frivolidade das pessoas que vivem ali. A banda sonora é bastante boa, e aqui temos mesmo de destacar a canção ouvida na abertura do filme, "Everybody's Talking", que ficou para a memória de quem gosta da música dos anos 70. Apesar de Jon Voight ser o actor mais importante e de fazer um bom trabalho neste filme, acaba ensombrado pela gigantesca interpretação de Dustin Hoffmann, que nos deixa mais um trabalho notável de uma fase particularmente luminosa da sua carreira artística. O filme logrou vencer os Óscares de Melhor Filme, Melhor Director e Melhor Argumento Adaptado.